A discussão sobre Inteligência Artificial costuma girar em torno da substituição de funções. Mas existe uma pergunta que me parece ainda mais relevante.
Quem vai formar os próximos especialistas? Os próximos líderes? Os próximos gestores?
Nos últimos anos, muitas empresas reduziram programas de desenvolvimento, passaram a contratar profissionais “prontos” e diminuíram o investimento na formação de talentos. Ao mesmo tempo, a IA começou a assumir justamente uma parcela importante das atividades executadas por profissionais em início de carreira.
É um movimento compreensível quando falamos de tarefas operacionais, repetitivas e de menor valor agregado. Automatizar esse tipo de trabalho faz sentido. Inclusive, o Microsoft Work Trend Index mostra que profissionais já utilizam IA diariamente para produzir apresentações, resumir documentos, organizar informações e executar tarefas que antes consumiam horas de trabalho.
Mas existe um efeito colateral que merece atenção.
Durante décadas, a trajetória profissional aconteceu de forma relativamente previsível. O profissional começava executando atividades mais básicas, aprendia observando colegas mais experientes, errava, recebia feedback, ampliava repertório e, aos poucos, desenvolvia capacidade analítica e estratégica para assumir decisões mais complexas.
Agora, parte dessa etapa está sendo automatizada.
Ao mesmo tempo, outro fenômeno vem ganhando força: gestores cada vez mais sobrecarregados, pressionados por metas, mudanças constantes e equipes mais enxutas. O tempo dedicado ao desenvolvimento de pessoas, à mentoria e às conversas de aprendizagem acaba sendo um dos primeiros recursos sacrificados pela rotina. E quando falta esse suporte, o que vemos é desengajamento, falta de pertencimento e, muitas vezes, esgotamento físico e emocional, tanto em quem lidera quanto em quem está em desenvolvimento.
Se a IA produz a primeira versão do relatório, organiza dados, estrutura apresentações e resume informações… e o líder já não consegue dedicar tempo para orientar, desafiar, estimular e acelerar esse aprendizado…
Onde está acontecendo a formação do próximo profissional sênior?
O Future of Jobs Report do World Economic Forum aponta que as competências mais valorizadas até 2030 serão pensamento analítico, aprendizagem contínua, liderança, criatividade, influência social e resiliência. Curiosamente, nenhuma delas se desenvolve apenas consumindo respostas prontas ou automatizando tarefas. Elas dependem de experiência, prática, convivência, contexto, boas decisões, orientação da liderança e tempo.
Mustafa Suleyman, no livro The Coming Wave, faz uma observação interessante: a grande questão da IA não será apenas o que ela conseguirá fazer, mas como as instituições irão adaptar seus modelos para continuar desenvolvendo capacidades humanas em um cenário cada vez mais automatizado.
Talvez esse seja um dos maiores paradoxos do mercado atual.
As empresas dizem que faltam profissionais “seniores”. Ao mesmo tempo, estão reduzindo justamente os espaços onde esses profissionais começam a ser construídos.
A senioridade não surge apenas do tempo de carreira. Ela nasce da combinação entre prática, observação, erro, feedback, suporte, responsabilidade crescente e desenvolvimento contínuo.
Quando eliminamos essas oportunidades, não estamos apenas reduzindo custos no presente. Podemos estar comprometendo a disponibilidade de especialistas, líderes e executivos no futuro.
Talvez a pergunta estratégica não seja apenas como usar IA para ganhar produtividade.
A pergunta talvez seja outra:
Como estamos formando pessoas capazes de fazer aquilo que a IA não fará sozinha?
Porque negócios sustentáveis não dependem apenas da tecnologia que adotam.
Dependem, principalmente, das pessoas que estarão preparadas para liderá-la daqui a dez ou quinze anos.
E essa formação começa muito antes de alguém receber o título de especialista.
Como você enxerga esse movimento? Estamos construindo a próxima geração de profissionais seniores ou criando um vazio de experiência que só perceberemos daqui a alguns anos?